sábado, 25 de setembro de 2010

Minutos antes de entrar no Palco...

Algo a distinguia das outras. Era um ser ausente. Eu ficava horas, tentando penetrar naquela dimensão em que se ausentava. Mas era impossível. Por vezes, seus olhos enfurecidos viam o mistério, mas as palavras errantes não o decifravam.
Aquele ar etéreo era o meu deslumbre. Era tanta liberdade, que ela se perdia... Brincava de voar com o vento, que a levava para aquele espaço vazio, que só ela conseguia penetrar. E eu a acompanhava com a limitação dos meus olhos. As vezes sentia seu pesado olhar sobre mim, como se temporariamente, ela voltasse a habitar aquele corpo mórbido, mas logo fugisse como uma ilusão. Outras vezes, seus assombrados olhos pareciam buscar uma fuga daquilo que eternamente a perseguia. De repente, ela havia atravessado aquele espaço tênue que separa a realidade e a fantasia. E nunca mais conseguiu voltar.
Não foi assim que nasceu. Nunca me pareceu ser uma menina feliz. Andava sempre sozinha. Se escondendo atrás daquele olhar perdido. Escondia na alma um sonho, que somente a mãe o conhecia. As duas dividiam um pequeno espaço, cercadas pelo silêncio.
Naquele dia, havia acordado antes que o galo cantasse. Ouvira dizer que isso dava azar, mas não conseguia dormir. Virou-se ainda na cama, tentando achar o sono que já havia perdido. Inútil. Levantou. Ensaiou, ensaiou, ensaiou...
Quando já não agüentava, parou. Não tinha como falhar. Tudo parecia perfeito. Seria atriz. Já ouvia os aplausos, todos para ela, a menina solitária. Hora de ir, a mãe iria depois. Deixou ainda na cama e saiu.
 No camarim olhou-se no espelho. Não era mais uma menina qualquer, era uma atriz. Minutos antes de entrar no palco olhou para o céu, como a pedir coragem. E entrou. Olhou aflita ao redor. Procurava a mãe. Cadê?! Não a encontrou. Não acreditou. Voltou a olhar. Ela não estava. Vacilou. Parou um instante ofega, tentando lembrar o texto. Impossível! Aquela fração de segundo lhe pareceu eterna. Havia esquecido o texto. E ficou parada ali, sem forças para fugir. De repente, como se acordasse de um sonho saiu do palco num sobressalto. Deixando para trás um espaço vazio.
Voltou para casa aos soluços. Não acreditava que a mãe tivesse esquecido. Naquele dia derrubaria a redoma de silêncio. Gritaria, esbravejaria... A porta estava trancada como deixou. A mãe ainda estaria dormindo. Entrou furiosa. Foi direto ao quarto, ela não estava. Passou pela cozinha, e entrou no quarto escuro que costumavam guardar lembranças. A fúria já lhe tomava o corpo. As mãos trêmulas acenderam a luz. E seus olhos ficaram, para sempre, presos naquele corpo enforcado.

2 comentários:

  1. Nossa, trágico e forte! Um conto perfeitoo!
    Fiquei presa nele, parabéns pela escrita, grande literata!

    ResponderExcluir
  2. Obrigada amiga escritora. Estamos juntas nessa trjetória literária.

    ResponderExcluir